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A ONU, o clima e o Plantio Direto

Por Dirceu Gassen às 11:38:42

Na história da humanidade os alimentos sempre foram o fator mais importante para o domínio das nações ricas e dominantes. Na evolução da agricultura, um grande diferencial durante o século XX, foi a adoção de máquinas e tratores que excluíram a mão de obra humana e a tração animal, determinando significativo aumento na eficiência de produção. Tudo isso ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, nos últimos 60 anos.

A partir da década de 1970 o Brasil desenvolveu novas tecnologias para a agricultura, chegando à liderança mundial na comercialização ou na produção de soja, carnes, sucos de frutas etc.  Além do investimento em pesquisa e transferência de tecnologias, houve o pioneirismo de agricultores que adaptaram novas práticas que viabilizaram a competitividade da agricultura de forma mais sustentável.

Hoje, o plantio direto é reconhecido como uma das maiores revoluções econômicas e ambientais, atendendo as demandas da humanidade, discutidas entre as lideranças mundiais na COP (Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas). Para auxiliar na reflexão e compreensão do que representa o plantio direto na produção de alimentos, na economia e na preservação de recursos naturais, seguem algumas reflexões.

A matéria seca da biomassa vegetal e animal contém aproximadamente 50 % de carbono.  A planta para produzir 1 kg de carbono extrai da atmosfera 3,66 kg de CO2 (dióxido de carbono) através do processo da fotossíntese. Como exemplo, um hectare de milho produz em torno de 15 toneladas de matéria seca (grãos + palha + raízes), dos quais em torno de oito toneladas de grãos.  Com base em 50 % dessa matéria seca em carbono, as plantas consumiram 27,4 toneladas de CO2 da atmosfera.  Depois dos processos biológicos da decomposição da matéria orgânica nas cadeias tróficas, estudos indicam que o plantio direto acrescenta em torno de 250 kg de carbono estável no solo todo o ano. Diferente da aração e gradagem, que liberam o carbono do solo para a atmosfera formando CO2.

No consumo de combustível, o agricultor que adota o plantio direto reduz em torno de 42 litros de diesel por hectare para cada safra de grãos.  Com base nas estimativas de 27 milhões de hectares sob plantio direto no Brasil, conclui-se que a agricultura deixa de consumir 1,13 bilhões litros de diesel para cada safra.  Isso equivale a 80% do B3 (mistura obrigatória de 3 % de biocombustível no diesel).  É importante destacar que o agricultor deixa de consumir o diesel equivalente ao que é adicionado de B3, e não é lembrado nem reconhecido por esse benefício.

Cada litro de diesel consumido em motores produz o equivalente a 2,68 kg de CO2, que é liberado para a atmosfera.  Portanto, o agricultor brasileiro que mostra uma produção crescente de alimentos, tem o crédito equivalente a três bilhões de kg de CO2 que deixa de liberar para a atmosfera, apenas na redução de consumo de diesel, fazendo plantio direto, sem arar e sem gradear o solo (1,13 bilhões de litros de diesel X 2,68 kg de CO2= 3,03 bilhões de kg de CO2).

Nas áreas de lavouras aradas e gradeadas, resultados de pesquisa mostram perdas de mais de 20 toneladas de solo fértil, todo o ano, por erosão causada pelas chuvas.  Com base na estimativa de redução de 90 % de solo erodido, com a adoção do plantio direto, o agricultor mantém, todo ano, 486 milhões de toneladas de solo fértil nas lavouras, evitando o assoreamento de barragens e o empobrecimento da terra agricultável.

A qualidade de água e a atividade biológica na agricultura, ainda não têm parâmetros mensuráveis, entretanto, é visível a importante contribuição do plantio direto nesses dois aspectos.  Também deve ser considerada a influência na temperatura da superfície do solo, na esponja de carbono, no fluxo e aproveitamento da água, na ciclagem de nutrientes, no controle biológico natural, na disponibilidade de mão-de-obra para outras atividades e nos aumentos da produção por unidade de área.

Os agricultores que adotam o plantio direto são líderes mundiais em sustentabilidade na produção, sendo diferenciados de outros segmentos da economia.  Por isso eles deveriam receber compensações em impostos, estímulos em seguros agrícolas ou outras formas de remuneração direta, como já ocorrem em países da Europa e da América do Norte.  No mínimo, esses agricultores deveriam ser homenageados nesse momento, quando estão sendo discutidas as demandas mundiais para a produção crescente de alimentos, pois eles produzem cada vez mais, ao mesmo tempo conservam os recursos naturais e reduzem o processo de aquecimento global.

Dirceu N. Gassen

 

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Formação  - Engenheiro Agronômo formado pela, Universidade de Passo Fundo, RS, 1977 - Mestrado em Agronomia na Área de Fitotecnia, UFRGS, 1980 - Estudou pragas de solo na Nova Zelândia - Curso de Controle Biológico de pragas nos Estados...

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www.embrapa.gov.br

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