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INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DE TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO

Por José Otávio Menten às 10:49:10

INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DE TECNOLOGIA DE APLICAÇÃO

A aplicação de defensivos agrícolas nos cultivos implica na contribuição do método químico para o manejo integrado das pragas-alvo. As pragas causam prejuízo de cerca de 42 % na produção vegetal em todo o mundo. Trata-se de uma medida que deve ser tomada quando as demais, em geral preventivas, não conseguiram atender a necessidade de controle. Para que a aplicação seja eficiente, há necessidade da correta identificação das pragas-alvo, da previsão de seu aparecimento ou o acompanhamento de sua população/severidade, da definição dos defensivos que serão usados, da decisão do momento da aplicação, da avaliação das condições climáticas para a aplicação, do preparo da calda, da escolha do equipamento que será utilizado, sua regulagem e calibração,  do destino adequado de sobras e embalagens, entre outras variáveis. Desta forma, o técnico responsável pela aplicação deve ter conhecimento de diversos conteúdos ou buscar assessoria de outros profissionais. 
 
Tecnologia de aplicação deve ser ensinada a estudantes que já tenham conhecimentos de cálculo, química, física, biologia, biologia do solo, meteorologia, ecologia, produção de grandes culturas, frutíferas, hortícolas, ornamentais, microbiologia, fitopatologia, entomologia, pragas das plantas cultivadas,  controle de plantas daninhas, topografia, mecânica e máquinas e sociologia e extensão. Deve contemplar conteúdos como formulação de defensivos agrícolas, métodos de aplicação, equipamentos e técnicas de aplicação e aspectos  operacionais e econômicos da aplicação. 
 
Considerando a inter-relação de processos, fica evidente a participação de áreas biológicas, exatas e humanas, tanto básicas como profissionalizantes no ensino da tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas. Na área biológica, há necessidade de se conhecer os sistemas de produção vegetal, os fatores de rendimento e as anomalias bióticas a abióticas, com ênfase a diagnose, taxonomia e biologia dos agentes bióticos que impedem a expressão do rendimento das culturas agrícolas. É fundamental a visão ecológica, para que o ambiente seja respeitado; deve entender a ação dos defensivos nos organismos não alvos e seu comportamento no solo, água e atmosfera e o destino correto de embalagens vazias, incluindo sua descontaminação e reciclagem. Assim como a visão toxicológica, para que o ser humano – sujeito a exposição dos defensivos durante o preparo da calda e sua aplicação ou no consumo dos alimentos com resíduos; deve entender o significado de período de carência ou intervalo de segurança, LMR (limite máximo de resíduo) e intervalo de reentrada, além de noções de seguranças e antídotos.  
 
Na área de exatas, a química é importante para entendimento dos processos de desenvolvimento dos produtos, incluindo síntese, formulações, metabolismo, resíduos etc. A física está presente no conhecimento do clima mais adequado para  as aplicações, reduzindo a deriva, e do movimento das gotas, para que os alvos sejam atingidos. O cálculo é importante para a definição do volume de calda a ser preparada, a dosagem, a velocidade da máquina etc. A engenharia envolve o desenvolvimento de máquinas e equipamentos apropriados, incluindo tamanho de gotas, pontas/bicos etc. 
 
Na área de humanas, o conhecimento da legislação pertinente é essencial; isto envolve desde aspectos de registro de defensivos, seu uso correto e seguro, até legislação de crimes ambientais. Também são importantes aspectos relacionados com transferência de tecnologia, assistência técnica e extensão rural, análise econômica da aplicação, relação custo-benefício etc. 
 
A complexidade do ensino da tecnologia de aplicação de defensivos fica evidente no seu conceito: "emprego de todos os conhecimentos científicos que proporcionem a correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas e sem deixar resíduo nos vegetais produzidos". Entretanto, é fundamental que o tema seja contemplado como conteúdo obrigatório em todos os cursos de ciências agrárias, tanto de nível superior como tecnológico e médio. Assim, fica garantido que os profissionais da área estejam devidamente preparados para assumir atribuições que contribuam para que os alimentos, energia, fibras e ornamentais sejam produzidos em quantidade e qualidade, respeitando o homem e o ambiente.  

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José Otavio Menten é Professor Associado da USP/ESALQ, Presidente do CCAS - Conselho Científico para Agricultura Sustentável, Coordenador da CoC-EA (Comissão Coordenadora do Curso de Engenharia Agronômica da USP/ESALQ), Membro do Conselho Sup...

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www.embrapa.gov.br

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